
Uma decisão tomada no âmbito da audiência de custódia, em Sobral, voltou a expor fragilidades do sistema de Justiça e provocou indignação entre comerciantes, policiais e a população em geral. Mesmo após uma investigação técnica da Polícia Civil do Ceará (PCCE) e a prisão em flagrante de um suspeito de integrar organização criminosa, o acusado foi colocado em liberdade menos de 24 horas depois, após pedido de relaxamento da prisão apresentado pelo próprio Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE).
A prisão foi realizada na última sexta-feira (06/02) pela PCCE, por meio da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas do Norte (DRACO NORTE/DRCO). O investigado foi autuado em flagrante pelo crime de integrar organização criminosa, com base em um Relatório Técnico da Coordenadoria de Inteligência (COIN), que apontou a existência de um grupo de WhatsApp criado para organizar ações criminosas voltadas ao controle e à interferência no comércio de garrafões de água em Sobral — uma prática que atinge diretamente comerciantes e consumidores.
As investigações também revelam que o suspeito já havia sido ouvido em 2024 em procedimento que apurava a soltura de fogos de artifício na cidade, em comemoração ao aniversário de Jairo Morais de Vasconcelos, conhecido como JJ ou Supremo, apontado como uma das principais lideranças do Comando Vermelho, atualmente homiziado no Rio de Janeiro. O histórico reforça que o caso não se trata de um episódio isolado, mas de uma investigação que vinha sendo acompanhada pelas forças de segurança.
Ainda assim, no sábado (07/02), após audiência de custódia, o acusado foi colocado em liberdade. O promotor responsável solicitou não apenas o relaxamento da prisão, como também a remessa do caso à Controladoria Geral de Disciplina (CGD), após o custodiado afirmar que teria sido “pressionado” a confessar durante o interrogatório policial — mesmo após, segundo os autos, ter admitido os fatos e detalhado a participação de outros integrantes do grupo criminoso.
O episódio levanta questionamentos que vão além deste caso específico. Bastará, daqui em diante, qualquer acusado alegar em audiência de custódia que foi “pressionado” para que seja imediatamente colocado em liberdade? Qual o peso real das investigações técnicas, dos relatórios de inteligência e do trabalho policial diante de uma simples declaração verbal? E como ficam os comerciantes que foram vítimas diretas das ações criminosas e hoje se veem novamente expostos?
Diante desse cenário, cresce a sensação de insegurança e impunidade. O que a população pode esperar de decisões como essa? Quais os rumos da Justiça em situações dessa natureza? O crime organizado será combatido dessa forma? Ou o que se desenha é um sistema em que o esforço da Polícia Civil resulta em processos disciplinares contra agentes, enquanto investigados por crimes graves retornam rapidamente às ruas?
Para muitos cidadãos, o caso simboliza um desequilíbrio preocupante: enquanto a polícia investiga, prende e enfrenta o crime organizado, a resposta institucional parece enfraquecer esse combate. O risco, alertam especialistas e moradores, é que a impunidade passe a reinar — e que a conta, como sempre, recaia sobre o trabalhador honesto e a sociedade que clama por segurança e justiça.
Jornalismo @miqueiasradio
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