A Câmara Municipal de Camocim está diante de uma escolha simples: defender sua credibilidade ou rasgar de vez o próprio Regimento Interno.
Tudo começou no dia 12 de maio, quando a bancada da prefeita Betinha rejeitou, em sessão ordinária, todos os requerimentos e projetos apresentados pelo vereador Marcos Coelho. Absolutamente todos.
Inconformado, Marcos subiu à tribuna e disparou críticas contra a maioria dos parlamentares, afirmando que vereadores recebem mais de R$ 13 mil por mês para produzir pouco e ainda dificultar o trabalho de quem tenta apresentar propostas.
A reação veio imediatamente.
Irritado com as declarações, o vereador James do Peixe elevou o tom e protagonizou uma das cenas mais polêmicas dos últimos anos no Legislativo camocinense. As ameaças feitas durante a sessão não são boatos, nem versões de bastidores. Estão registradas na transmissão oficial da Câmara Municipal e podem ser assistidas por qualquer cidadão no canal oficial da instituição no YouTube.
Ou seja: não há discussão sobre o fato de que as declarações foram feitas. Elas foram públicas, gravadas e testemunhadas por toda a cidade.
Já os relatos de agressões físicas e morais após o encerramento da sessão, ainda dentro das dependências da Câmara, foram presenciados pelo presidente Emanuel Vieira, por vereadores e servidores que precisaram intervir para conter a situação, segundo os relatos apresentados sobre o caso.
O mais curioso é que, diante da repercussão e do processo que pode atingir seu mandato, comenta-se nos bastidores que a estratégia de defesa será negar tudo.
Negar o quê?
As declarações registradas em vídeo continuam disponíveis para qualquer pessoa assistir. Estão lá. Foram feitas diante do presidente da Câmara, dos vereadores, dos servidores e da população.
E é justamente aqui que a situação deixa de ser apenas um problema de James do Peixe e passa a ser um problema institucional da Câmara Municipal de Camocim.
O presidente Emanoel Vieira já falou sobre a criação de uma Comissão de Ética. Mas muitos se perguntam: criar comissão para quê, se o próprio Regimento Interno já determina o que deve ser feito?
O Artigo 15 é claro. Quando um vereador comete excessos dentro do recinto da Câmara, cabe ao presidente adotar providências proporcionais à gravidade dos fatos. O texto prevê advertência pessoal, advertência em plenário, cassação da palavra, retirada do plenário, suspensão da sessão, convocação da Câmara para deliberar sobre o caso e, em situações mais graves, até mesmo a proposição de cassação do mandato.
A pergunta é inevitável: por que nenhuma dessas medidas foi aplicada até agora?
Emanoel Vieira não soube do caso por terceiros. Ele estava presente. Interveio durante a sessão. Ouviu as declarações. Presenciou o clima de tensão.
Então o que falta?
Mais um episódio?
Mais uma confusão?
Mais uma cena lamentável dentro da Casa do Povo?
Outro detalhe que chama atenção é que esta não é a primeira vez que o nome de James do Peixe aparece associado a episódios de forte tensão política. Em 2018, após uma sessão legislativa, o vereador também se envolveu em uma séria discussão com o então vereador Oliveira da Pesqueira (in memoriam). Na época, o assunto morreu sem qualquer consequência prática.
A história está prestes a se repetir?
Porque, se os vídeos das ameaças continuam públicos, se as testemunhas existem e se o Regimento prevê providências, a omissão passa a falar tão alto quanto os próprios acontecimentos.
E a pergunta que ecoa nos corredores da política camocinense continua sem resposta:
Se fosse Marcos Coelho o autor das declarações registradas em vídeo e dos fatos que hoje são atribuídos a James do Peixe, a Câmara estaria agindo exatamente da mesma forma?
Ou existem vereadores que podem tudo e vereadores que devem apenas assistir?
📝 Jornalismo @miqueiasradio